AMIGOS ESCRITORES

Realidade
                                     João Oliveira
Interromperam meu sonho. Quem teve a audácia de fazê-lo? Serias tu, realidade? Não suportas minha fertilidade?
Ainda hei de te transformar. Mas assim, deixa para lá. Quero voltar a sonhar. Amanhã faço isso, mas hoje não. 
Eu estava imaginando pessoas se abraçando. Não tens o direito de me negar o calor humano. Envolto de emoções, como sendo maneira de manifestações. Ai de ti se o fizer. Faço te abraçar como és. De te moldar a existência até o fim dos pés.
Amanhã trato de lidar contigo. Hoje não. Hoje eu sou sonho. Sou o desejo do fadigado. Sou a causa de quem descansa. Sou a pessoa que ama. Sou veste de esperança. O voo que te alcança. Hoje sou você disfarçado. Ocultado em pessoas de ações caladas.



O céu sorriu para mim
                                                             Bruna Caetano

O céu sorriu para mim de manhã. Não havia nada – absolutamente nada – que precisasse além daquilo. Da luz que cega meus olhos, da brisa que arranca meu peito, do vento que enxuga minhas lágrimas e dos pássaros que, vez ou outra, me ensinam a viver.
Eu não sou nada, além de um mero mortal. Mas, então, por que todas as noites tenho a sensação de que sou algo especial? De que sou um covarde em busca da felicidade, mesmo caminhando para a escuridão? Apelos e mais apelos – não fossem eles, o que seria de mim? -, debruço-me sobre a janela e vejo meu pai passar por lá. Ah, meu pai! Por que se foi embora sem deixar ao menos uma frase, um abraço, ou uma briga? Daria meus braços e minhas mãos – que são a porta dos meus sentimentos – para ouvir ao menos sua risada.
Hoje, porém, o céu sorriu para mim. E nada pude fazer além de saltar da janela e criar asas. Se isso não ocorresse, deitaria no concreto gelado e esperaria a partida, esperaria minha carona chegar. Eu pulei sem pensar duas ou três vezes – apenas uma. E essa foi suficiente. Basta! Disse eu, com a consciência descrente.
Enquanto caía, vozes e sussurros tapavam o barulho dos carros lá embaixo. Ninguém entenderia o que estava acontecendo e não precisava que me entendessem. Chega de novelas e protelações! Eles mal sabiam alegrar seus corações! Tive tempo de pensar e me lembrar daquela moça que deixei ir embora. Pobre dela se me amasse como eu a amei, não desejava a ninguém aquilo que me tornei.
Há cinco metros do chão, minhas costas magras estavam ocas. A esperança morreu naquele instante, não poderia mais acreditar nas histórias de um viajante. Fechei meus olhos e abri meus braços – toma meu pai, o teu abraço! O chão duro me socorreu, deu-me o amor que você não procedeu.
E então, todo quebrado e distante de tudo, eu vi o que há muito tempo não enxergava: a vida. Respirei como pela primeira vez, meu peito inflava e doía. Nada que não pudesse suportar. Naquele instante eu vi. O céu sorriu para mim.
Tarde demais.



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