Sozinho, deixe-me sozinho

Sozinho, deixe-me sozinho
Não percorras o caminho que há entre mim e ti,
Não faças a travessia que há entre mim e o mundo,
Não precisas estar aqui,
Não precisas importunar o moribundo
Deixe-o aqui, deixe-me aqui.
Se te aproximares mais, podes te afogar
No rio de lágrimas e lástimas do qual, sem querer, fui nascente
E morrerás em vão, ainda distante daquilo que procuras
Morrerás em busca de um doente,
Morrerás contaminado e, uma vez assim, não mais te curas.
Não, não venhas!
Não, te contenhas!
O caminho é perigoso, tortuoso e ingrato,
Se chegares a mim, o que conseguirás?
Iludir a ti e a quem te fala?
Dar-te-á algum consolo invadir meu espaço?
Não, nem venhas, porque um dia a voz se cala
E o espaço se desfaz, restando apenas o teu fracasso
De tentares, de teimares, de nadares sem saber, para, no fim morreres na praia.
Existe, algures em mim, um lugar repleto de nada
Não o invadas com a espada do amor
Que só restará o desespero-mor
De não jorrar nem sangue do corte que farás
Espantar-te-á em vão se tentares tocar meu coração,
Pois só se toca aquilo que existe e, se me permites,
Habito o mundo do intangível, do incompreensível  
Habituo-me à ausência e só ela me consola
Não percas teu escasso tempo,
Pois tuas esperanças não cabem nos meus braços.

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