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Amor sem esperança

Composição de Maria Clara sobre o poema "Discurso Fúnebre" de João L. Sabino.

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Angústia

Angústia queimando meu peito
A rústica sensação de que não há jeito
Queimando o coração
Fazendo avesso o direito
Angustiando as horas

Todas as coisas e suas demoras
Tudo dói
Todos os sonhos, histórias, memórias
Tudo se foi
Ou vai
Ou fica

Angustia, augusta angústia!
Come minha vontade de viver
Come a saudade, faz esquecer
Que há um amanhã
Depois de hoje
Faz esquecer de que há um hoje
Devora a hora
Dói de agora em diante
Eterniza o sofrer no instante
Preenche o vazio
Esvazia ainda mais!

Faz-me rio sem mar
Faz-me templo sem paz
Profana-me!

Angústia: o sufoco.
Angústia: a falta de ar.
Angústia: pareço louco.
Angústia: dedos na jugular.

Angústia queima
Angústia revira

Angústia,
Por que vive em mim?

O Brasil que tem jeito*

Eu acredito no Brasil porque ainda acredito nas pessoas – cada um que deposite sua fé no que quiser, não é? Ainda tenho fé na humanidade. Dizer que não creio nela seria dizer que não creio em mim e, embora eu me duvide o tempo todo e mais do que a qualquer outra pessoa, luto para crer em mim mais do que creio no nada. O nada é o vazio no qual, vez ou outra, deposito minha alma; é o não-lugar; é a ausência. Eu acredito que o Brasil tenha jeito – jeito, raça, sotaque, molejo, arte, samba, voz que canta, voz que grita, corpo que dança... E creio no jeito que daremos a ele. Irônico dizer – e, por isso, eu digo – que a pátria amada deve perder seu jeito brasileiro que se revela no sorriso velhaco e na lei do mínimo esforço. Esse Brasil-brasileiro-primeiro, acabar-se-á em si mesmo: alimentar-se dos seus não é sustento: ninguém cresce devorando o próprio corpo, ninguém sobrevive assim – nem gente nem pátria. Logo, essa primeira Vera Cruz de abutres, de sanguessugas, de Planalto por debaixo …

Necessidades

Não basta estar vivo:
é preciso viver,
sentir, saber...
É preciso arriscar,
tremer, chorar,
sorrir, cantar.
É preciso sofrer
para ver como é superar a dor,
é preciso correr para os braços de quem for,
é preciso abraço,
é preciso amasso,
corpos conexos,
é preciso sexo,
é preciso amor!

SAUDOSISMO

Aquele era o tempo da sede de nada
Em que eu observava o chão e a enxada
Que o trabalhador empunhava como se fosse uma espada
E cravava na terra até mesmo sem saber o motivo do gesto
E eu buscava o sentido dos atos, mas não encontrava.

Aquele era o tempo dos pés descalços
Abraçando a poeira, evitando os percalços
Sonhando sozinhos, desbravando caminhos
E eu na janela, como ela parado
Por dois mundos cercado
Olhando, pensando e esquecendo
E os mundos me vendo e eu nem notando.

Era o tempo dos silêncios que diziam
Dos olhares que acolhiam
E das palavras que eu dizia sem saber os significados
Porque as palavras não significavam mais que o nome que tinham
Porque as dores não doíam para sempre nos machucados
E os horizontes não se escondiam: se abriam
E sorriam tocando o fundo de mim.

Era o tempo da conversa na rua e eu dentro de casa
Da cabeça na lua e da esperança por asa
Da alma nua e da vida em brasa
Do futuro mais perto do que o presente de agora
E do sonho tão perto que parecia reali…

EU GIRASSOL

Como crianças atrás das pipas, corro atrás das melodias. Persigo as belezas poéticas que nascem dos fatos cotidianos e teço, com o que encontro, minhas alegrias e visto-me de novidade, teço-me numa nova idade e afasto-me do cansaço dos anos, dos enganos e aproximo-me de um eu não meu, mas lírico voz do poema, voz do poeta, voz do sonho mais idílico numa procura e perseguição constante ao inalcançável que corre na lágrima do rosto, lágrima que não se aguenta e que também tenta, saltada dos olhos, alcançar a beleza que ornamenta o mundo, que encanta o homem que nos toca ao fundo, que é chama que nos consome. Como os que correm atrás de pipa correm atrás das pipas, corro atrás das coisas bonitas, das coisas esquisitas, das coisas que espantam. Minha alma pequena persegue aquilo que canta e, nos cantos, se esconde para chorar, se esconde para cantar, para contemplar esconde-se para ser bonita também e perseguir, aflita, aquilo que acredita e tornar-se perseguidora de sonhos, construtora de sonhos, en…

Sozinho, deixe-me sozinho

Sozinho, deixe-me sozinho Não percorras o caminho que há entre mim e ti, Não faças a travessia que há entre mim e o mundo, Não precisas estar aqui, Não precisas importunar o moribundo Deixe-o aqui, deixe-me aqui. Se te aproximares mais, podes te afogar No rio de lágrimas e lástimas do qual, sem querer, fui nascente E morrerás em vão, ainda distante daquilo que procuras Morrerás em busca de um doente, Morrerás contaminado e, uma vez assim, não mais te curas. Não, não venhas! Não, te contenhas! O caminho é perigoso, tortuoso e ingrato, Se chegares a mim, o que conseguirás? Iludir a ti e a quem te fala? Dar-te-á algum consolo invadir meu espaço? Não, nem venhas, porque um dia a voz se cala E o espaço se desfaz, restando apenas o teu fracasso De tentares, de teimares, de nadares sem saber, para, no fim morreres na praia. Existe, algures em mim, um lugar repleto de nada Não o invadas com a espada do amor Que só restará o desespero-mor De não jorrar nem sangue do corte que farás Espantar-te-á em vão se tentar…

Oceano

E eu sonho.